Estratégias de Yield
As principais formas de gerar rendimento em DeFi (lending, liquid staking, looping e yield fixo) e a diferença entre APR e APY.
~22 min · 5 seções
Seção 1
Lending: emprestar e tomar emprestado
Em protocolos de lending você deposita tokens, recebe os juros pagos por quem toma emprestado e pode usar o depósito como colateral. É a forma mais previsível de rendimento em DeFi.
O funcionamento é simples: depositantes colocam, por exemplo, USDC num mercado; tomadores pegam esse USDC emprestado dando outro ativo como garantia (ETH, BTC, SOL, até xStocks); os juros pagos pelos tomadores vão para os depositantes, menos uma taxa do protocolo.
A taxa varia com a utilização:
utilização = total emprestado ÷ total depositado
Com utilização baixa, sobra dinheiro e os juros são baixos. Quando a utilização passa de um ponto de inflexão (o kink, geralmente entre 80% e 92%), a taxa sobe de forma agressiva para atrair depósitos e desestimular novos empréstimos.
Ao depositar você recebe um token de recibo (aUSDC no Aave, por exemplo, ou shares de um vault Morpho) que acumula os juros sozinho.
Riscos a entender:
- Bad debt: se uma liquidação falha, por queda rápida do colateral ou oráculo errado, o prejuízo pode cair sobre os depositantes.
- Saque travado: com 100% de utilização não há dinheiro livre para sacar até alguém devolver empréstimos.
- Curadoria: em Morpho e Euler, cada vault é montado por um curador que escolhe quais colaterais aceitar. O risco depende dessas escolhas.
Na página Earn, filtre por tipo "Lending" e abra a oportunidade para ver o histórico de APY e a ficha do protocolo (auditorias, idade, hacks).
Pontos-chave
Utilização
define o juro; acima do kink a taxa dispara.
Token de recibo
representa o depósito e acumula juros.
Bad debt
liquidação que falha vira prejuízo do depositante.
Curador
em vaults Morpho/Euler, as escolhas do curador definem o risco.
Seção 2
Liquid staking
O liquid staking faz staking por você e devolve um token (LST) que acumula as recompensas e pode ser usado em outras estratégias ao mesmo tempo.
Em redes proof-of-stake (Ethereum, Solana, Hyperliquid), travar tokens para validar a rede rende recompensas. O problema do staking direto é a liquidez: o token fica preso, e sair pode levar dias.
Protocolos de liquid staking fazem o staking e devolvem um LST:
- Ethereum: stETH/wstETH (Lido), rETH (Rocket Pool), cbETH, weETH
- Solana: JitoSOL, mSOL, jupSOL, INF
- Hyperliquid: kHYPE, stHYPE, beHYPE e outros
Existem dois modelos. No rebase (stETH), o saldo cresce todo dia. No de valor acumulado (wstETH, JitoSOL, kHYPE), o saldo fica fixo e o token vale cada vez mais do ativo base.
A vantagem é a composabilidade: o LST continua rendendo staking enquanto você o usa como colateral, em pools LST/ativo base (com IL mínimo) ou em estratégias de looping.
Riscos: contrato do protocolo, depeg (em momentos de pânico o LST pode negociar abaixo do valor justo, como o stETH em 2022) e slashing, a punição de validadores por mau comportamento.
Pontos-chave
LST
recibo de staking que acumula recompensas e continua negociável.
Rebase vs. valor acumulado
saldo que cresce ou preço que cresce.
Composabilidade
staking mais outra estratégia ao mesmo tempo.
Depeg
o LST pode negociar abaixo do valor justo em crises.
Seção 3
Looping (multiply)
Looping é depositar um ativo que rende, pegar emprestado contra ele e redepositar, várias vezes. Multiplica o rendimento e também o risco de liquidação.
O ciclo: deposita colateral → toma emprestado → compra mais do colateral → deposita de novo. Protocolos como Kamino, Fluid e Jupiter Lend fazem isso em uma única transação ("multiply").
A alavancagem máxima teórica depende do LTV (quanto você pode pegar por dólar de colateral):
alavancagem máxima = 1 ÷ (1 − LTV)
Com LTV de 80%, o máximo é 5×. Usar o máximo é pedir para ser liquidado.
O rendimento líquido é:
(APY do colateral × alavancagem) − (juro do empréstimo × (alavancagem − 1))
Exemplo: colateral rendendo 3% (um LST de ETH), empréstimo de ETH a 2,2%, alavancagem 3×: 3% × 3 − 2,2% × 2 = 4,6%, contra 3% sem alavancagem.
A estratégia só funciona enquanto o spread for positivo. Se o juro do empréstimo sobe acima do rendimento do colateral, o loop passa a perder dinheiro, e isso acontece justamente quando o mercado fica agitado. Em pares correlacionados (LST/ETH, stable/stable) o risco principal é depeg; com colateral volátil contra dívida em stablecoin, é a queda de preço.
Pontos-chave
1 ÷ (1 − LTV)
a alavancagem máxima; nunca use o teto.
Spread
o rendimento do colateral precisa superar o juro da dívida.
Liquidação
uma queda (ou depeg) relativamente pequena liquida posições muito alavancadas.
Juros variáveis
o spread pode virar negativo sem aviso.
Seção 4
Yield fixo com Pendle
A Pendle separa um ativo que rende em duas partes: o principal (PT) e o rendimento (YT). Comprar PT com desconto trava uma taxa fixa até o vencimento.
Quase todo rendimento em DeFi é variável. A Pendle cria um mercado de taxa fixa pegando um ativo que rende (sUSDe, wstETH, um vault de stablecoin) e dividindo em:
- PT (Principal Token): vale 1 unidade do ativo base no vencimento. Hoje negocia com desconto.
- YT (Yield Token): recebe todo o rendimento gerado até o vencimento e vale zero depois dele.
Exemplo: um PT com vencimento em 6 meses custa 0,96. No vencimento vale 1,00. Isso é 4,17% em meio ano, cerca de 8,5% ao ano, fixo, não importa o que aconteça com a taxa variável no período.
Quem compra YT faz a aposta contrária: ganha se o rendimento variável médio ficar acima da taxa implícita no preço.
Pontos de atenção:
- Saída antes do vencimento: o PT pode estar abaixo do preço que você pagou, se as taxas subiram. A taxa só é "fixa" para quem segura até o fim.
- Risco do ativo base: se o sUSDe (ou o que estiver por trás) perder a paridade, o PT acompanha.
- Liquidez: mercados pequenos têm slippage relevante.
Na página Earn, essas oportunidades aparecem com o tipo Fixed Yield.
Pontos-chave
PT
compra com desconto, resgate 1:1 no vencimento; o desconto é o seu rendimento.
YT
aposta no rendimento variável e vale zero no vencimento.
Taxa implícita
definida por oferta e demanda no mercado da Pendle.
Fixo até o fim
vender antes expõe você à variação de preço do PT.
Seção 5
APR vs. APY
APR é a taxa simples, sem reinvestimento. APY inclui o efeito dos juros compostos. Compare sempre APR com APR e APY com APY.
APR (Annual Percentage Rate) é a taxa simples: 12% APR é 1% ao mês, 12% no ano.
APY (Annual Percentage Yield) considera que os ganhos são reinvestidos:
APY = (1 + APR ÷ n) ^ n − 1
em que n é quantas vezes por ano o ganho é reinvestido.
- 12% APR composto mensalmente = 12,68% APY
- 100% APR composto diariamente = 171,5% APY
A diferença é pequena em taxas baixas e enorme em taxas altas, e é por isso que muitos sites preferem anunciar APY.
Na prática, a composição nem sempre é automática:
- Lending (Aave, Morpho, Kamino) compõe a cada bloco, então o APY anunciado é real.
- Em pools de liquidez as taxas se acumulam, mas você precisa coletar e redepositar (pagando gas) para compor.
Por isso o DeFi Lab usa APR na página Pools (taxas de LP não compõem sozinhas) e APY na página Earn (que vem do DefiLlama e reflete protocolos que compõem).
Dois cuidados finais: todo APR/APY exibido é uma projeção de dados recentes, não promessa. E separe o rendimento base (juros, taxas, staking) do rendimento de incentivos (tokens distribuídos pelo protocolo). Incentivos acabam, e o token recebido pode desvalorizar. Na Earn, a coluna de APY mostra "base + reward" quando há incentivos.
Pontos-chave
APR
taxa simples, sem reinvestimento.
APY
inclui juros compostos; sempre maior que o APR equivalente.
Composição real
automática em lending, manual em LP.
Base vs. incentivo
incentivos em token são temporários e voláteis.